segunda-feira, 16 de junho de 2014

Fita métrica


Ofereciam – nos
- nós -
Como parte
Do contrato:
Terra
Nome
Dote.

O destino exato,
Métrico:
Objeto de mobília
Útero

Românticos,
De longe
Olharam:
Olhos púrpuras azuis anil
Donzela,
Amada,
Névoa
Que desfaz.

O destino etéreo,
Métrico:
Sub existir,
Na evanescência
De ser miragem
E não corpo
Que sangra.

Nos medem,
Milimetricamente
A palavra
O passo
O vacilo:
Quantas lágrimas você chora?
Para quantos você deu?

Já cuidou do seu cabelo? Já passou a sua roupa? Já brilhou o seu sorriso?
Já contou a sua grana? Já lustrou os seus sapatos? Já malhou a sua bunda? Já limpou suas crianças? Ariou a prataria? Comprou a nova revista? Apagou a marca do rosto? Engoliu mais um desgosto? Conhece a nova dieta? Satisfez um homem hoje? Comprou aquele vestido?
Tirou a poeira dos livros? Pendurou o certificado? Já escondeu os seus anseios? Alisou teus devaneios? Já cuidou do lar? Já fudeu gostoso? Já gozou de quatro? Andou de carro novo?

A cada esquina uma imagem
Te dizendo:
Seja!
Seja!
Seja!

O destino fatal,
Métrico:
Outdoor,
Vitrine,
Manequim.
A moça branca lisa e sorridente
Do comercial de margarina.

Mas não se enganem!
Essa
Tua fita métrica
Sua balança
As vidraças
Que rodeiam essas jaulas
Suas correntes
Nunca serão
Fortes o suficientes
Para nos ditar
Caminhos.

Pois quebramos teus vidros
E erguemos no grito
Esse corpo que é arma
 
Se fizeram
Do nosso corpo
Latifúndio
Propriedade privada
Para vossa exploração
Faremos - nos terras griladas
Por nós mesmas
Ocupando nossos destinos
Com pulsos erguidos
E seios de artilharia.

Não se enganem!
Essa fita métrica
Que querem enrolar em nossos pescoços
Em nossas cinturas
Estrangular nossos sonhos
Nossos sorrisos
Rasgamos com os dentes.

Não se enganem!
Estos cuerpos
Son nuestros cuerpos
Aguerridos
De força
E Libertação.

(M.Q.)

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