quarta-feira, 15 de agosto de 2012
terça-feira, 3 de julho de 2012
(Ricardo Reis, 12-6-1914)
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos.) Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
Mais longe que os deuses. Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer nao gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
E sem desassosegos grandes. Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,
Nem invejas que dão movimento demais aos olhos,
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,
E sempre iria ter ao mar. Amemo-nos tranquilamente, pensando que podiamos,
Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
Ouvindo correr o rio e vendo-o. Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento -
Este momento em que sossegadamente nao cremos em nada,
Pagãos inocentes da decadência. Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-as de mim depois
Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos
Nem fomos mais do que crianças. E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio,
Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim - à beira-rio,
Pagã triste e com flores no regaço.
quinta-feira, 21 de junho de 2012
Alucinação
Fria geração:
bunda tela umbigo
Indigesta vontade.
Engessado
ânimo de injeção
Escuridão, exclusão, escravidão...
Não gere nada,
não gera ação.
No espelho ecoa o ego
multiplicado ao infinito,
sem direção.
quarta-feira, 20 de junho de 2012
Pro Mess
nunca mais mentiras promissoras prometidas.
Desculpas sinceras de culpas consentidas
estabilidade falsamente co-gerida.
Desespero, desamparo...
Desassossego, desapego.
Ao sentir-me ausente, me sinto.
Sinto muito! Só assim sou.
terça-feira, 19 de junho de 2012
Consumir o tempo
(Colligere)
http://www.youtube.com/watch?v=MlhFAAtg8wc
segunda-feira, 18 de junho de 2012
Não digas nada!
Não digas nada!
Nem mesmo a verdade
Há tanta suavidade em nada se dizer
E tudo se entender —
Tudo metade
De sentir e de ver...
Não digas nada
Deixa esquecer
Talvez que amanhã
Em outra paisagem
Digas que foi vã
Toda essa viagem
Até onde quis
Ser quem me agrada...
Mas ali fui feliz
Não digas nada.
(F. Pessoa)
segunda-feira, 4 de junho de 2012
O Passeio de Joana
(Clarice)
2X Cecília - 2X Campos Mortos
O meu amor não tem
importância nenhuma.
Não tem o peso nem
de uma rosa de espuma!
Desfolha-se por quem?
Para quem se perfuma?
O meu amor não tem
importância nenhuma.
(Cecília)
Caminho pelo acaso dos meus muros
Caminho pelo acaso dos meus muros,
buscando a explicação de meus segredos.
E apenas vejo mãos de brando aceno,
olhos com jaspes frágeis de distância,
lábios em que a palavra se interrompe;
medusas da alta noite e espumas breves.
Uma parábola invisível sabe
o rumo sossegado e vitorioso
em que minha alma, tão desconhecida,
vai ficando sem mim, livre em delícia,
como um vento que os ares não fabricam.
Solidão, solidão e amor completo.
Êxtase longo de ilusão nenhuma.
(Cecília)
quarta-feira, 9 de maio de 2012
segunda-feira, 23 de abril de 2012
sexta-feira, 30 de março de 2012
Carta a Pablo – Bakunin

Paris, 29 de março de 1845
Sou eu mesmo, como antes, inimigo declarado da realidade existente, só que com uma diferença: eu parei de ser um teórico, eu venci, enfim, em mim, a metafísica e a filosofia, e me entreguei inteiramente, com toda a minha alma, ao mundo prático, ao mundo dos fatos reais.
Acredite em mim, amigo, a vida é bela; agora tenho pleno direito de dizer isto porque parei há muito tempo de olhá-la através das construções teóricas e de conhecê-la somente em fantasia, pois experimentei efetivamente muitas das suas amarguras, sofri muito e me entreguei frequentemente ao desespero.
Eu amo, Pablo, amo apaixonadamente: não sei se posso ser amado como gostaria que fosse, porém não me desespero; sei ao menos que tem muito simpatia por mim; devo e quero merecer o amor daquela a quem amo, amando-la religiosamente, ou seja, ativamente; ela está submetida à mais terrível e à mais infame escravidão e devo libertá-la combatendo aos seus opressores e incendiando no seu coração o sentimento da sua própria dignidade, suscitando nela o amor e a necessidade da liberdade, os instintos da rebeldia e da independência, fazendo a recordar a sensação da sua força e dos seus direitos.
Amar é querer a liberdade, a completa independência do outro; o primeiro ato do verdadeiro amor é a emancipação completa do objeto que se ama; não se pode amar verdadeiramente a não ser alguém perfeitamente livre, independente, não só de todos os demais, mas também e sobretudo daquele de quem é amado e a quem ama.
Esta é a profissão da minha fé política, social e religiosa, aqui está o sentido íntimo, não só dos meus atos e das minhas tendências políticas, mas também, o tanto quanto posso, da minha existência particular e individual; porque o tempo em que poderiam ser separados estes dois gêneros de ação está muito longe da gente; agora o homem quer a liberdade em todas as acepções e em todas as aplicações desta palavra, ou então não a quer de modo algum; querer a dependência daquele a quem se ama é amar uma coisa e não um ser humano, porque o que distingue o ser humano das coisas é a liberdade; e se o amor implicar também a dependência, é o mais perigoso e infame do mundo porque é então uma fonte inesgotável de escravidão e de embrutecimento para toda a humanidade.
Tudo que emancipa os homens, tudo que, ao fazê-los voltar a si mesmos, suscita neles o princípio da sua vida própria, da sua atividade original e realmente independente, tudo o que lhes dá força para serem eles mesmos, é verdade; todo o resto é falso, liberticida, absurdo. Emancipar o homem, esta é a única influência legítima e bem-feitora.
Abaixo todos os dogmas religiosos e filosóficos – não são mais que mentiras -; a verdade não é uma teoria, e sim um hecho (fato/feito); a vida é a comunidade de homens livres e independentes, é a santa unidade do amor que brota das profundidades misteriosas e infinitas da liberdade individual.
quinta-feira, 22 de março de 2012
quinta-feira, 15 de março de 2012
Poli & cia.
polui o amor?
E se polir um só amor,
cabe amar todo o amor?
Me policio, me sacio e me policio.
Ou poli, ou polirei...
Porque no presente polir não encontrei.
Uma decisão e tanto!
Política na ação.
Condição, abstração... sensatez ou não.
Fica a lição:
pensar e querer
estão em constante
contradição.
Dialeticamente diletante.
é a contradição outra
de dois pólos distantes
poeticamente conviventes.
sexta-feira, 2 de março de 2012
quinta-feira, 1 de março de 2012
Arruinando
Vai? Só vai. Como sempre foi.
Como todos os ciclos: começo, meio, fim.
Fins são novos começos,
necessários.
Nada acabou,
mas esse pressentimento é conhecido.
Essa pitada de não liberdade,
que acelera com agonia o coração.
"Alguma coisa vai... acontecer!
Vai... Acontecer!
Viver é encontrar maneiras diferentes de não morrer"?
Morto-vivo, morto-vivo, ...-vivo! .....................................
E as pedras vão rolando, o mato vai crescendo
e a ruína ganha um novo significado.
Repleto da beleza de tudo que ali existiu.
Pra apreciação de quem não tem nada a ver
com o que passou.
E que supõem mentiras fantasiosas
do nada que sabem.


