terça-feira, 26 de julho de 2011

Continuação inesperada...

[...] Você sabe o que se convencionou chamar de id? Seria, na gente, em que lugar eu não sei, o centro do conflito animal, primitivo, onde os absolutos se encontram face a face: o instinto da morte e o da vida, o da destruição e o da criação, isto é, o cadinho onde se encontram, em estado puro, misturados, o bem e o mal.

Foram batizados de Tanatos e Eros, o que quer dizer, em grego, os deuses da morte e do amor. No id, não há meios-termos, panos quentes. É um querer absoluto, obsessivo, tudo ou nada. Quer uns exemplos concretos? As crianças, os índios e os tarados são os que têm, na sociedade humana, os ids mais livres e manifestos. Então, admitamos que a gente se descubra amando e desejando absolutamente uma determinada mulher. Lá está o seu Eros, no seu id, apelando. Ou ele é satisfeito imediata e satisfatoriamente, ou entra em cena o Tanatos, destruindo quem se nega ou impede a satisfação do Eros. Mas isso não é nada. Já pensou no contrário? Você quer destruir alguém. Isso lhe é absolutamente necessário, por decisão do instinto de morte, o Tanatos, em seu id particular. Todo aquele ou aquilo que se negar ou impedir a realização plena e imediata desse instinto básico será objeto das forças vingativas de Eros, de seu instinto de amor absoluto e você passará a amar, construir, criar. Bem, nem sempre essas forças são assim solidárias, na base de uma mão lava a outra no fundo dos instintos animais.
Elas podem se engalfinhar. Aliás, parece ser o que mais fazem lá dentro da gente. E o vencedor, exausto, axaurido, exige satisfação na medida atual de suas forças: e a gente ama, exausto e exaurido, nossos objetos de amor, ou em caso de vitória contrária a gente odeia e destrói, exausto e exaurido, os nossos objetos de ódio mortal.

Aí está. Resumindo: se o amor é total, mata-se; se o ódio é total, ama-se; se o ódio e o amor são totalmente antagônicos, ou não acontece nada ou amamos e odiamos com as sobras sobreviventes dessa luta amorosamente mortal dentro de nós. [...]

Cleo e Daniel (Roberto Freire)

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