sexta-feira, 29 de julho de 2011

Ufa!

Depois do dilúvio: alívio.

Tudo desconcertantemente nos conformes.

Sem meias palavras.
Antipocritamentipócrita!

Prazer de estante X Prazer de instante

O oito é pouco,
oitenta é louco.

O gozo segue itinerante.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Anti-depressivos

Álcool e sexo,
são desfibriladores.

O cadáver "reanimado",
respira por aparelhos.

Altos e baixos...
A espera é o anti-tesão.

Morfina!

Continuação inesperada...

[...] Você sabe o que se convencionou chamar de id? Seria, na gente, em que lugar eu não sei, o centro do conflito animal, primitivo, onde os absolutos se encontram face a face: o instinto da morte e o da vida, o da destruição e o da criação, isto é, o cadinho onde se encontram, em estado puro, misturados, o bem e o mal.

Foram batizados de Tanatos e Eros, o que quer dizer, em grego, os deuses da morte e do amor. No id, não há meios-termos, panos quentes. É um querer absoluto, obsessivo, tudo ou nada. Quer uns exemplos concretos? As crianças, os índios e os tarados são os que têm, na sociedade humana, os ids mais livres e manifestos. Então, admitamos que a gente se descubra amando e desejando absolutamente uma determinada mulher. Lá está o seu Eros, no seu id, apelando. Ou ele é satisfeito imediata e satisfatoriamente, ou entra em cena o Tanatos, destruindo quem se nega ou impede a satisfação do Eros. Mas isso não é nada. Já pensou no contrário? Você quer destruir alguém. Isso lhe é absolutamente necessário, por decisão do instinto de morte, o Tanatos, em seu id particular. Todo aquele ou aquilo que se negar ou impedir a realização plena e imediata desse instinto básico será objeto das forças vingativas de Eros, de seu instinto de amor absoluto e você passará a amar, construir, criar. Bem, nem sempre essas forças são assim solidárias, na base de uma mão lava a outra no fundo dos instintos animais.
Elas podem se engalfinhar. Aliás, parece ser o que mais fazem lá dentro da gente. E o vencedor, exausto, axaurido, exige satisfação na medida atual de suas forças: e a gente ama, exausto e exaurido, nossos objetos de amor, ou em caso de vitória contrária a gente odeia e destrói, exausto e exaurido, os nossos objetos de ódio mortal.

Aí está. Resumindo: se o amor é total, mata-se; se o ódio é total, ama-se; se o ódio e o amor são totalmente antagônicos, ou não acontece nada ou amamos e odiamos com as sobras sobreviventes dessa luta amorosamente mortal dentro de nós. [...]

Cleo e Daniel (Roberto Freire)

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Somos todos imortais. Teoricamente imortais, claro. Hipocritamente imortais. Por que nunca consideramos a morte como uma possibilidade cotidiana, feito perder a hora no trabalho ou cortar-se fazendo a barba, por exemplo. Na nossa cabeça, a morte não acontece como pode acontecer de eu discar um número telefônico e, ao invés de alguém atender, dar sinal de ocupado. A morte, fantasticamente, deveria ser precedida de certo “clima”, certa “preparação”. Certa “grandeza”.

Deve ser por isso que fico (ficamos todos, acho) tão abalado quando, sem nenhuma preparação, ela acontece de repente. E então o espanto e o desamparo, a incompreensão também, invadem a suposta ordem inabalável do arrumado (e por isso mesmo “eterno”) cotidiano. A morte de alguém conhecido ou/e amado estupra essa precária arrumação, essa falsa eternidade. A morte e o amor. Por que o amor, como a morte, também existe – e da mesma forma dissimulada. Por trás, inaparente. Mas tão poderoso que, da mesma forma que a morte – pois o amor é uma espécie de morte (a morte da solidão, a morte do ego trancado, indivisível, furiosa e egoisticamente incomunicável) – nos desarma. O acontecer do amor e da morte desmascaram nossa patética fragilidade. [...]

Em memória de Lilian (Caio Fernando Abreu)

quinta-feira, 21 de julho de 2011

18:48

Deve estar acontecendo agora.
A liberdade, nua, se expressando.

A barriga ronca de um jeito estranho e o peito queima.
Os pensamentos descontrolados criam cenas desagradáveis.

A descoberta é agoniante e dolorosa.
Mas a propriedade é um roubo!
E o amor, fluido.

Devo ter virado uma garrafa sem gargalo.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

EPITALAMIO (P. Neruda)

Recuerdas cuando
en invierno
llegamos a la isla?
El mar hacia nosotros levantaba
una copa de frío.
En las paredes las enredaderas
susurraban dejando
caer hojas oscuras
a nuestro paso.
Tú eras también una pequeña hoja
que temblaba en mi pecho.
El viento de la vida allí te puso.
En un principio no te vi: no supe
que ibas andando conmigo,
hasta que tus raíces
horadaron mi pecho,
se unieron a los hilos de mi sangre,
hablaron por mi boca,
florecieron conmigo.


[...]

Assunção

Enquanto a vidraça segue embaçada,
continuamos tentando enxergar o que está do outro lado.
É isso que eu assumo!

E que os olhares continuem confusos, não importa.
A não perspectiva nos ilude e nos empodera.
E seguimos criando e sendo algo novo.

"O caminho se faz ao andar(mos)." Não é mesmo?

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Por trás da vidraça (Caio Fernando Abreu)

Cá entre nós: fui eu quem sonhou que você sonhou comigo?
Ou teria sido o contrário?
Sonhei que você sonhava comigo. Mais tarde, talvez eu até ficasse confuso, sem saber ao certo se fui eu mesmo quem sonhou que você sonhava comigo, ou ao contrário, foi quem sabe você quem sonhou que eu sonhava com você. Não sei o que seria mais provável. Você sabe, nessa história de sonhos — falo o óbvio —, nunca há muita lógica nem coerência. Além disso, ainda que um de nós dois ou os dois tivéssemos realmente sonhado que um sonhava com o outro, também é pouco provável que falássemos sobre isso. Ou não? Sei que o que sei é que, sem nenhuma dúvida:
Sonhei que você sonhava comigo. Certo? Não, talvez não esteja nada certo. Também não era isso o que eu queria ou planejava dizer. Pelo menos, não desse jeito embaçado como uma vidraça durante a chuva. Por favor, apanhe aquele pequeno pedaço de feltro que fica sempre ali, ao lado dos discos. Agora limpe devagar a vidraça — quero dizer, o texto. Vá passando esse pedaço de feltro sobre o vidro, até ficar mais claro o que há por trás. Lago, edifício, montanha, outdoor, qualquer coisa. Certamente molhada, porque só quando chove as vidraças embaçam. Será? Não tenho certeza, mas o que quero dizer, disso estou certo, começa assim:
Sonhei que você sonhava comigo. Agora penso que é também provável que — se realmente fui mesmo eu a sonhar que você sonhou comigo; e não o contrário — eu não estivesse sonhando. Nada de sono, cama, olhos fechados. É possível que eu estivesse de olhos abertos no meio da rua, não na cama; durante o dia, não à noite — quando aconteceu isso que chamo de sonho. Embora saiba que — se foi dessa forma assim, digamos, consciente — então não seria correto chamá-la de sonho, essa imagem que aconteceu —, mas de imaginação ou invento até mesmo delírio, quem sabe alucinação. Mas não, não é isso o que quero contar, O que quero contar, sei muito bem e sem nenhuma hesitação, começa assim:
Sonhei que você sonhava comigo. Parece simples, mas me deixa inquieto. Cá entre nós, é um tanto atrevido supor a mim mesmo capaz de atravessar — mentalmente, dormindo ou acordado — todo esse espaço que nos separa e, de alguma forma que não compreendo, penetrar nessa região onde acontecem os seus sonhos para criar alguma situação onde, no fundo da sua mente, eu passasse a ter alguma espécie de existência. Não, não me atrevo. Então fico ainda mais confuso, porque também não sei se tudo isso não teria sido nem sonho, nem imaginação ou delírio, mas outra viagem chamada desejo. Verdade eu queria muito. Estou piorando as coisas, preciso ser mais claro. Começando de novo, quem sabe, começando agora:
Sonhei que você sonhava comigo. Depois que sonhei que você sonhava comigo, continuei sonhando que você acordava desse sonho de sonhar comigo — e era um sonho bonito, aquele —, está entendendo? Você acordava, eu não. Eu continuava sonhando, mas na continuação do meu sonho você tinha deixado de sonhar comigo. Você estava acordado, tentando adequar a imagem minha do sonho que você tinha acabado de sonhar à outra ou à soma de várias outras, que não sei se posso chamar de real, porque não foram sonhadas. Mas, se foi o contrário, então era eu, e não você, quem tentava essa adequação — nessa continuação de sonho em que ou eu ou você ou nós dois sonhamos um com o outro. Nos víamos? Quase consegui, agora. Preciso simplificar ainda mais, para começar de novo aqui:
Sonhei que você sonhava comigo. Depois, fiquei aflito. E quase certo de que isso não tinha acontecido. O que aconteceu, sim, é que foi você quem sonhou que eu sonhava com você. Mas não posso garantir nada. Sei que estou parado aqui, agora, pensando todas essas coisas. Como se estivesse — eu, não você — acordando um pouco assustado do bonito que foi ter tido aquele sonho em que você sonhava comigo. Tão breve. Mas tudo é muito longo, eu sei. Estou ficando cansativo? Cansado, também. Está bem, eu paro. Apanhe outra vez aquele pedaço de feltro: desembace, desembaço. Choveu demais, esfriou. Mas deve haver algum jeito exato de contar essa história que começa e não sei se termina ou continua assim:
Sonhei que você sonhava comigo. Ou foi o contrário? Seja como for, pouco importa: não me desperte, por favor, não te desperto.

terça-feira, 5 de julho de 2011

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Bis coitus


Domingos de luxúria
após noites estreladas,
de prazeres embriagados.

Louca (in)dependência!
Reciprocidade viciosa.
A um olhar e uma pergunta.

Aquele buraco no tempo
que eu tanto desejei,
agora me instiga.

E uma voz ofegante sempre volta aos meus ouvidos:
"Mais, mais, mais!"
Eis meu novo vício: gotas de chocolate.

Despedida


A ida me despe,
despedaça.
Sigo sem essas partes,
as partes aos pares seguem.

Cegam-me do futuro,
distorcem meus planos.
São como os astros e suas órbitas.

Partidas exorbitantes,
que aos pouquinhos me partem.
Sofrendo dores me refaço,
feito um rabo de lagartixa.