domingo, 27 de julho de 2014

Praticando a não-monogamia quero mais afeto.

Fonte: http://reinvencaodoser.wordpress.com/2014/07/15/praticando-a-nao-monogamia-quero-mais-afeto/

Desde que deixei de morar com meu “ex-marido” passei a repensar as formas de relações e cheguei a conclusão de que a monogamia não está para preservar o afeto, o amor e nem as relações amorosas/romanticas/sexuais.
Compreendo que a monogamia é um sistema que está de mãos dadas com a propriedade privada, a transmissão do capital e o patriarcado, sendo que desde sua base estava ali para servir a dominação das mulheres, das crianças e com o tempo foi se enraizando cada vez mais em nossa sociedade e servindo à heterossexualidade compulsória e se tornando um sistema complexo que de nada tem a ver com a relação entre duas pessoas, tres pessoas ou mais pessoas, afinal podemos ver outros sistemas de relações onde podemos ver a dominação acontecendo.

O RLI foi um grupo militante que sem duvidas me ajudou a enxergar muitas coisas das quais a monogamia vai se apossando e dominando, porém também não acho que ele soluciona ainda a questão.
Desde então tenho buscado relações não monogâmicas e conhecido pessoas incríveis nesse meio e que sem dúvidas muitas delas tem sido minha família e estão ao meu lado debatendo e me ajudando a expandir minha consciência.

Por esses dias escrevi um poema sobre uma relação que tenho vivido e esse poema muito me encantou e ao terminá-lo vi o quanto rejeitei muitas coisas das quais falavam sobre relações afetivas, das quais eu logo ligava à monogamia e comecei a pensar o quanto a não-monogamia me fez rejeitar muitas coisas românticas que não eram obrigatoriamente monogamia ou amor romântico, era somente expressões de afeto, nem todo afeto é amor romântico, nem toda paixão é monogâmica e tenho aprendido isso no aprofundamento das minhas relações.

É difícil admitir algumas coisas, mas tenho refletido muito sobre a forma como me relaciono com o afeto e digo que é muito difícil lidar com isso, é complicado lidar com afeto, com envolvimento, com aquilo que você sente quando sua pele encosta na pele de alguém que você ama ou então lidar com aquilo que você sente quando fica muito tempo longe de quem você ama.
Precisamos aprender a falar sobre isso.

Temos olhado a monogamia não como a relação que acontece entre duas pessoas que se amam, mas sim o sistema que rege o modelo dessa relação, o modelo que esse afeto irá se desenrolar e já que olhamos a monogamia como aquilo que acontece estatisticamente na sociedade, temos que falar sobre como nossos afetos se desenrolam socialmente e como isso é vivido também de forma coletiva, afinal a monogamia se enraizou também nos nossos afetos.
Já se esquematizou a monogamia e já olhamos ela historicamente, materialmente e como ela tem sido vivida nos dias de hoje, já vimos como o patriarcado tem enfiado suas garras nas nossas relações e como precisamos brigar todos os dias com ele para que ele fique longe e isso foi muito importante, agora vejo e creio que temos que evoluir o debate e ver para onde podemos continuar construindo.

Acredito que temos e podemos começar a debater como temos feito para nos livrar disso de forma prática, pois tenho me deparado com teorias muito lindas e práticas que muitas vezes mais nos afastam do afeto do que propriamente do patriarcado, não quero olhar para o afeto com a mesma aversão que olho para a monogamia, quero poder sentir a pele nua da pessoa que eu amo encostando na minha pele e ver aquela sensação de forma linda, da forma que deveria ser olhada.

Com isso não quero dar margem para que a gente debata coisas infantis e imaturas que justifiquem a nossa dominação sobre qualquer pessoa, não quero que isso dê margem para punhetas patriarcais, não quero que isso dê margem para a gente olhar o ciúmes, como muitos olham, e colocar a culpa dele no outro e dizer que quem é responsável por isso é o outro, justificando a interdição do desejo do outro, mas também não devemos colocar a toda culpa do ciúmes sobre nossos ombros e começar a chicotear nossas costas quando sentirmos isso, acredito que o afeto e o amor deve ser olhado, vivido e sentido de forma leve e suave.

Não hierarquizar nossas relações não deve dar margem para utopias que digam que todos os nossos afetos são iguais, pois eles não são, acredito que o afeto nos ajuda a nos organizar socialmente e a consciência de classe nos ajuda a nos organizar politicamente.

O afeto faz com que eu traga pessoas para perto de mim, o afeto que eu sinto pela minha família, não é o mesmo que sinto pelos meus amigos, o afeto que sinto pela minha mãe não é o mesmo que sinto pelo meu pai, o afeto que sinto pelo meu companheiro não é o mesmo que sinto pelo meus amigos e o afeto que eu sinto pelos meus amigos não é o mesmo que sinto pela galera da faculdade e assim por diante, não dá para a gente ser ingenuo e dizer que isso é hierarquia, pois hierarquia tem a ver com dominação e não com maior ou menor importancia que as pessoas tem na minha vida, posso muito bem amar um amigo, transar com ele, beija-lo, abraça-lo e querer muito estar perto, mas dizer que isso que eu faço com meu amigo tem o mesmo grau de importância ou é igualzinho ao que eu faço com a pessoa que eu me relaciono afetivo e sexualmente aí para mim já é diluir as relações em um nível tão, mas tão utópico que não consigo compreender, até por que eu não tenho fuck friend e não consigo lidar com isso (sou menos revolucionário e desprendido por conta disso galerinha sexy positive?), o afeto me organiza, o afeto faz com que as pessoas que gosto mais e que amo mais estejam perto de mim, SIM, e tem gente que não está tão perto de mim, por termos vidas e rotinas diferentes, mas que gosto tanto quanto quem está perto e chamo isso de amor, SIM.

A consciência de classe me faz ter noção de onde eu estou e quem eu sou na sociedade e me faz começar a procurar amizades e estar em lugares onde pessoas que pertencem a mesma classe que eu estejam, compreender que preciso me unir as pessoas de classes oprimidas e ouvi-las, ver o que elas estão construindo e nos juntarmos para sair da nossa situação de subalternidade, e o afeto vai se desenrolando nisso tudo, mas uma coisa não é outra.

Então eu me oponho à essa noção de hierarquia de relações como todos os afetos são o mesmo afeto, me oponho à isso e acredito que temos sim que respeitar o afeto e compreender que ele nos organiza socialmente e compreender que o afeto é algo muito bom, é uma linguagem não falada, acredito que é uma linguagem sinalizada, através da forma como respiramos mais aliviados quando estamos com alguém que nos desperta afeto, a forma como nossos olhos ficam quando estamos com alguém que nos desperta afeto, assim acredito que o afeto é também uma linguagem (afinal olhamos a linguagem de uma forma capacitista, como se linguagem fosse somente aquilo que emite som, e não é).

Assim, concluo que muito do que se constrói e do que se debate em meio não-monogâmico nos leva para relações patriarcais com raízes mais flexíveis ou para relações mais desprovidas de afetos e rasas e a partir dessa minha conclusão eu vejo que isso mais me confunde do que me auxilia, pois eu quero sim uma relação afetiva que dure, eu quero sim uma relação afetiva que o sexo seja incrível, eu quero sim uma relação afetiva onde o afeto seja profundo, eu quero sim uma relação afetiva onde quando a pele nua da outra pessoa encostar na minha pele nua me produza sensações incríveis, eu quero sim uma relação afetiva onde possamos pensar em relação longa e profunda (afinal eu já vi relações longas de gente com relação livre que mais parecia união pela revolução do que amor e cumplicidade de fato), eu quero uma relação sincera, eu quero uma relação coerente.

Vejo também que muito do que se debateu na não-monogamia coloca toda galera em um mesmo balaio, achando que a relação heterossexual tem as mesmas problemáticas da monogamia duma relação entre duas mulheres, ou que a mulher cis e a mulher trans são dominadas da mesma forma em suas relações afetivas e que seu afeto é norteado pela mesma ótica dentro do patriarcado, ou que o ciúmes dessas mulheres tem a mesma raiz, acho que precisamos nos unir mais e debater isso de forma coletiva, com o coletivo e não um monte de gente olhando a realidade material das relações que lhes convém da mesma forma sem os recortes necessários e falando por todos.

Quero que possamos nos distanciar da monogamia sem chamar o amor e o afeto de monogamia, quero uma relação livre que não seja rasa sentimentalmente e que não seja desafetada, sinto que ao muito se debater a politica da relação, pouco se debateu o afeto e nas minhas relações eu quero é muito afeto!!!

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Desgaste

Desde nunca tão gasto,
insensatez por todos os laços.

Frutas podres escolhidas,
de sementes interrompidas.

Descaminhos movediços,
sentimentos sem sentidos.

O pião vacilou.
Duas vezes. Eu vi!

Logo cai
e o tempo pára.

Realidade acorda.
O sonho acaba.

Somos pouco mais que nada.